Nov 4 2010
  • Google Bookmarks
  • del.icio.us
  • Digg
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Rec6
  • Facebook
  • Twitter
  • email
  • Print

Nudez

Não sei o quanto vocês lembram do seu passado, mas eu acho que eu lembro de muita coisa. Me pego pensando em coisas banais, e depois passo mais algum tempo tentando entender o porquê. Cenas que não foram especiais, mas que por algum motivo se fixaram na minha memória. Fico pensando no que aconteceria caso eu contasse a cena para as pessoas que também aprticiparam, será que lembram também? Que me achariam louco?

Uma dessas memorias volta e meia ressurge na minha mente. Lembro de um texto que li em minha apostila do Objetivo, talvez de português, não me lembro em que série eu estava, mas consigo visualizar a página, o texto e a charge anexada relacionada ao texto.
E hoje resolvi tentar achar esse texto, mas para isso só me lembro do tema e de uma frase: “A humanidade nua é feia”.
Bom, se for ver a onde eu trabalho, talvez possa ser uma explicação!

Nudez

A filha tentava convencer a mãe a ir à praia e a velha resistia:
estava muito idosa e gorda para vestir maiô.
— Mas, mamãe, eu já vi de maiô, na praia, muitas senhoras mais velhas e mais gordas do que você!
E a velha suavemente:
— Eu também já vi. Por isso é que não vou.
Para mim, o critério dessa velha é o critério certo em matéria de nudez, O que é feio se esconde. Um moço, uma moça, no esplendor da juventude, seus belos corpos podem se mostrar praticamente desnudos, de biquíni, de sunga, de cavado: assim tão enxutos, rijos, tostados, chegam a ser castos. Predomina a impressão de beleza e saúde sobre a sugestão erótica. E, depois, sabe-se que aquela floração é tão transitória! Deixem que os jovens fruam o instante passageiro, que usem e mostrem os corpos na sua hora de flor antes que chegue a hora da semente e do declínio.
Afirmam os nudistas, com perfeita lógica, que, todo o mundo andando nu, a nudez acostuma e deixa de escandalizar: sim, acredito que num campo de nudistas se acabe vivendo com a mesma naturalidade que numa sala de famz7ia. Aliás, quem convive com índios sabe disso: o hábito torna a nudez invisível O que eu tenho contra os nudistas é a exibição obrigatória da feiúra humana, o seu despojamento total, a miséria fisiológica sem um véu que a disfarce. O ridículo, a falta de dignidade de todo o mundo nu.
Certa amiga minha, que, numa praia da Noruega, de repente se viu dentro de um grande bando de gente nua, diz que o seu choque primeiro não foi o da vergonha, foi o do grotesco. As pelancas, os babados, os rins flácidos, os joelhos grossos. A velhota magra com seus ossinhos de frango assado, a quarentona de busto murchinho, o senhor ruivo de barriga redonda, braços e canelas tão finos e peludos que, se tivesse mais duas pernas, seria igual a uma aranha. A matrona obesa e o seu esposo idem e o par de jovens rechonchudos, de mãos dadas como dois porquinhos enamorados. A seca donzela machona de coxas de cavalete, e a falsa Vênus de cintura grossa, com o falso atleta de torso enorme e pernas curtas. Da tribo toda, praticamente só se salvaram os adolescentes e as crianças.
A humanidade nua é feia, não há dúvida. E por isso mesmo a gente se oculta debaixo da roupa. Talvez mais do que para o defender do frio, a roupa se inventou para encobrir o corpo e lhe dar dignidade. O que é bonito se mostra, o que é feio se esconde, é a lei de todas as culturas humanas. Nada mais triste do que a deterioração do que foi belo. Ninguém usa no dedo um anel sem a pedra, ninguém bota na sala um ramo de flores murchas.
(Rachel de Queiroz)

1 Comentário

  1. silvia

    estou com dificuldade de fazer um resumo para redação deste texto nudez de raquel de queiroz.se alguém poder me ajude por favor.Grat a mesma

    Reply

Leave a Reply

(required)

( will not be shown ) (required)